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Nuvens negras sobre o Império do Meio (II)

Ponto Final

Artigo de opinião no “Ponto Final” de 16 de Setembro, página 3.

Ao longo das últimas décadas a China tem experienciado um período de desenvolvimento económico sem paralelo na história da humanidade. Esta revolução surpreendente teve um impacto significativo não só no tecido económico, social e cultural do país mas também no seu equilíbrio ambiental. As autoridades chinesas são agora confrontadas com a delicada questão de saber como lidar com os problemas ambientais sem perturbar o desenvolvimento económico do país.

Para o Partido Comunista da China (PCC) um compromisso entre esses dois objectivos aparentemente contraditórios parece residir na noção de “civilização ecológica” (shengtai wenming). Recentemente adicionado ao vocabulário oficial, este conceito está ligado ao objectivo de alcançar uma sociedade xiaokang (uma sociedade de bem-estar generalizado) e desempenha um papel cada vez mais importante no plano de desenvolvimento do país, juntamente com o desenvolvimento económico, político e cultural. Em 2007 o então presidente Hu Jintao defendeu a Civilização Ecológica pela primeira vez no seu relatório ao 17º Congresso Nacional do PCC. O termo também tem sido traduzido como “Cultura de Conservação” ou “Progresso Ecológico” em documentos oficiais. Cinco anos mais tarde, no seu relatório ao 18º Congresso, Hu Jintao enfatizou que “Promover o progresso ecológico é uma tarefa de longo prazo de vital importância para o bem-estar das pessoas e o futuro da China”. Tal é a importância dada ao conceito de civilização ecológica que este se encontra consagrado na Constituição do PCC.

Muitos dos problemas ambientais mais complexos que afectam a China – e o mundo – resultam directa ou indirectamente de decisões e comportamentos diários dos indivíduos. Actos aparentemente insignificantes, quando multiplicados pela população global, têm um impacto negativo significativo sobre o meio ambiente. Embora as fontes industriais continuem a ser uma das principais causas da poluição, os indivíduos são a segunda maior fonte poluente. Isto também é verdade no caso da China, e em proporções esmagadoras, uma vez que se trata do país mais populoso do planeta. Os comportamentos e estilos de vida individuais estão no cerne dos problemas ambientais e da sua possível solução. Nos últimos anos a formulação de políticas ambientais tem vindo a reduzir o papel do Estado e a colocar cada vez mais ênfase no papel dos cidadãos/consumidores. Os indivíduos são cada vez mais entendidos como agentes de mudança ambiental, e os seus comportamentos cada vez mais sujeitos a apertado escrutínio. A China evidencia cada vez mais os sintomas típicos de uma “sociedade de consumo”, pelo menos se atendermos às suas cidades, fervilhando com uma nova classe média urbana ávida por alcançar um estilo de vida ocidental. A economia do país não está mais focada exclusivamente em servir como “fábrica do mundo”, tendo também de servir um mercado interno de 1,3 biliões de consumidores. A ascensão da classe média representa uma passagem da China para o papel de moderna sociedade de consumo mas também coloca pressão crescente sobre o seu meio ambiente.

Governantes um pouco por todo o mundo têm vindo, desde há décadas, a discutir, projectar e implementar políticas públicas de modo a educar os indivíduos e as famílias, influenciar as suas decisões e reduzir o impacto ambiental dos seus comportamentos. O termo “política ambiental” inclui todas as medidas governamentais destinadas a avaliar o grau de poluição ambiental; a avaliar essa poluição em relação à ameaça que representa tanto para o bem-estar humano (visão antropocêntrica) como para os ecossistemas (visão ecocêntrica); e controlar as actividades poluentes por meio de regulamentos, incentivos económicos e campanhas de informação. O comportamento dos indivíduos e famílias tem um impacto ambiental em diferentes áreas tais como o consumo de água, a produção de resíduos, o consumo de alimentos, a escolhas de meios de transporte, etc. Uma vez que os comportamentos e decisões individuais são uma importante fonte de problemas ambientais, eles devem ser considerados como uma componente chave para encontrar soluções eficientes e duradouras. Os instrumentos de política ambiental tradicional revelam-se insuficientes para lidar com a gravidade e diversidade dos problemas ambientais actuais e assegurar o desenvolvimento sustentável. É necessário olhar além das ferramentas tradicionais como a regulamentação, as campanhas de informação pública, os instrumentos de mercado e as soluções tecnológicas. É necessário reconhecer a importância ambiental dos comportamentos individuais e projectar novas estratégias dirigidas directamente aos indivíduos enquanto fontes de danos ambientais, reduzindo assim o seu impacto sobre o meio ambiente.


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