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Os Bons Samaritanos e a China moderna (III)

Ponto Final

Coluna de opinião “Entre Aspas”, no “Ponto Final” de 28 de Junho, página 3.

A apatia dos transeuntes chineses face aos estranhos vítimas de acidentes é em boa medida explicada por um sistema jurídico que é por vezes imprevisível e injusto para com quem tenta ajudar. Alguns comentadores argumentam que a omissão de auxílio é justificada pelo receio de incorrer em responsabilidade pelos ferimentos. Este fenómeno foi rotulado como o “efeito Peng Yu”. Em 2006 o jovem Peng Yu viu uma idosa deitada no chão após uma queda e decidiu acompanhá-la ao hospital. Mais tarde a mulher levou o jovem a tribunal acusando-o de ter provocado a sua queda. O tribunal condenou o socorrista a pagar 40 por cento das despesas. A sentença referiu que de acordo com o “senso comum” era muito possível que o jovem tivesse esbarrado na senhora e que o mais “normal” seria que Peng saísse logo após a entrada da idosa no hospital em vez de ficar para confirmar se estava tudo bem. O tribunal entendeu que tal comportamento ia “obviamente contra o senso comum”. Este caso foi um ponto de viragem na história chinesa recente, com a generalidade das pessoas a temer uma resposta hostil às boas acções. Wang Shengjun, presidente do Supremo Tribunal Popular, reconheceu que este tipo de decisões enfraquece o sistema jurídico e solicitou aos juízes que protejam os bons samaritanos e não os deixem ser vítimas de mal-entendidos. A história estabeleceu-se, de uma forma ou de outra, na mente do cidadão comum. Um novo consenso emergiu de acordo com o qual não é sensato ajudar um estranho num lugar público. Os indivíduos que se recusam a ajudar afirmam que muitas pessoas têm sido chantageadas ao longo dos anos depois de ajudarem estranhos. Yunxiang Yan qualifica esses episódios como casos de “extorsão extraordinária”, referindo-se à existência de mais de vinte casos.

Recentemente, em Xangai, um velho desmaiou e caiu. As pessoas reuniram-se ao seu redor mas ninguém ofereceu ajuda. Um homem pegou no telemóvel e começou a filmar. Um jovem saiu da multidão e ofereceu-se para ajudar, pedindo ao homem para continuar a filmar para o caso de posteriormente vir a ser acusado de ter causado o acidente. Esta atitude prudente pode vir a revelar-se sábia. Em 2011, na província de Jiangsu, um motorista de autocarro ajudou uma mulher de 81 anos que caiu. A mulher chamou a polícia e alegou que o motorista a tinha atropelado. A polícia verificou a câmara de vídeo do autocarro e constatou que a mulher estava a mentir. “Será necessário trazer uma câmara de vídeo sempre que se quer fazer alguma coisa boa?” perguntava o jornal People’s Daily após o incidente. Na sequência de vários casos semelhantes, algumas vítimas de acidentes encontraram uma maneira inteligente de obter ajuda quando todos os possíveis socorristas se recusam a intervir: fazer uma declaração pública isentando o socorrista de responsabilidade. Em 2009, um idoso caiu no chão em Nanjing. Ninguém se atreveu a ajudá-lo. Em desespero, o idoso gritou: “não é culpa de ninguém, caí sozinho”. Mal pronunciou estas palavras todos os transeuntes se aproximaram para o ajudar.

Mesmo que a maioria das pessoas sinta compaixão pelas vítimas de acidentes, os casos de “extorsão” de quem tenta ajudar têm um impacto negativo sobre o comportamento dos espectadores, dissuadindo-os de ajudar. O efeito Peng Yu contribuiu, sem dúvida, para a apatia de alguns transeuntes. No entanto, este efeito não explica por que razão nenhuma das dezoito pessoas que viram Yueyue deitada na estrada não fez, pelo menos, qualquer tentativa de bloquear o tráfego em sentido contrário ou de chamar as autoridades. A meio caminho entre a apatia total e intervenção ousada, a atitude mais razoável seria a de pedir ajuda médica sem tocar na criança, evitando um agravamento dos ferimentos. Infelizmente, as dezoito pessoas que passaram por Yueyue naquela estrada de Foshan, na mais rica das províncias chinesas, estavam tão distraídas ou preocupadas com a sua própria eventual responsabilidade que esqueceram algo tão simples como pegar no telemóvel e marcar o número de emergência.


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