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Os Bons Samaritanos e a China moderna (II)

Ponto Final

Coluna de opinião “Entre Aspas”, no “Ponto Final” de 14 de Junho, página 3.

Uma das explicações avançadas para a indiferença dos transeuntes chineses face aos estranhos que são vítimas de acidentes está relacionada com uma alegada “crise moral” da sociedade chinesa. De acordo com um inquérito online promovido na China continental, 42 por cento dos participantes consideram que o incidente de Yueyue, em 2011, foi devido a um “declínio da moralidade”. Este declínio é visto como uma consequência inevitável da luta obstinada do país pelo crescimento económico. Nesta óptica, a falta de bons samaritanos é apenas uma das diversas facetas de um problema mais amplo. A busca frenética de riqueza corroeu os valores que o Partido Comunista procurou instigar sobre o sacrifício individual em nome do bem comum. Desde que Deng Xiaoping lançou as suas reformas em 1978, a pobreza generalizada deu lugar ao surgimento da maior classe média do mundo. Os códigos tradicionais, incorporados pelo Confucionismo, Budismo e Taoísmo, foram deliberadamente desmontados sob o regime de Mao Tsé-Tung, que os procurou substituir pelos valores comunitários do socialismo. Agora a fachada do comunismo deu lugar a uma espécie de “capitalismo em estado bruto”. A ascensão do materialismo levou a uma mudança ética da austeridade comunista para o hedonismo consumista, que Xiaoying Wang descreveu recorrendo ao conceito de “personalidade pós-comunista”. Esta personalidade é caracterizada pelo hedonismo e egoísmo, pela falta de um código moral e por uma falta de orientação e inibição. Zou Xingming explica a suposta falta de valores sociais na sociedade contemporânea chinesa pela inadequação dos valores confucionistas. O autor refere-se em especial a uma “hierarquia do amor” subjacente no pensamento de Confúcio. Esta hierarquia é baseada em relações de sangue e implica que o amor à família seja maior do que o amor ao estranho com quem nos cruzamos na rua. Segundo o autor, a hierarquia do amor foi e continua a ser mais forte do que outros conceitos e forma um grande obstáculo à construção da tão propalada “sociedade harmoniosa”.

Outros autores argumentam que o fim do comunismo como uma força significativa na vida das pessoas abriu um “vácuo espiritual”. À medida que as pessoas competem para ficarem ricas e subirem na escala social elas mudam o seu objecto de adoração do maoísmo para o capitalismo, criando um vácuo espiritual. Antes de Mao a indiferença para com os outros já existia mas era mitigada por um sistema moral e religioso tradicional. Esse sistema foi alterado pelo regime comunista, especialmente durante a Revolução Cultural. Actualmente o comunismo, ideologia que dominou a vida do povo chinês como uma religião, já não modela a vida do cidadão comum como no passado.

Alguns analistas descrevem um cenário diferente, apontando para o desenvolvimento do voluntariado e da filantropia, a proliferação de organizações não-governamentais e o crescimento de movimentos de defesa dos direitos individuais como exemplos da emergência de um novo tipo de raciocínio moral, para além das relações pessoais, e da expansão da compaixão face aos estranhos. Yunxiang Yan afirma que os relatos muitas vezes contraditórios sobre a paisagem moral chinesa derivam da complexidade da própria realidade e da escassez de estudos empíricos. O autor salienta que a sociedade chinesa experienciou uma mudança radical. Os chineses estão actualmente a lidar mais com estranhos, muitos deles estrangeiros, e a sua busca pelo interesse próprio pode por vezes resultar num comportamento anti-social extremo.

A apatia dos espectadores chineses, independentemente das suas causas, levanta questões sensíveis relativamente aos valores morais e legais. Enquanto a indiferença dos transeuntes não pode ser considerada como uma conduta ilícita, a maioria considera que estamos perante um comportamento imoral. A fronteira entre a moral e o Direito, e o seu papel numa sociedade em rápida mutação como a China, estão abertos à discussão.


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