Pearl River Delta Law

Home » "Entre Aspas" - Ponto Final » Os Bons Samaritanos e a China moderna

Os Bons Samaritanos e a China moderna

Ponto Final

Coluna de opinião “Entre Aspas”, no “Ponto Final” de 31 de Maio, página 3.

Já abordámos neste espaço a tragédia de Yue Yue, a menina de dois anos que em 2011 foi atropelada numa rua de Foshan. As câmaras de vigilância captaram dezoito pessoas que passaram pelo local sem parar para socorrer a criança até esta ser finalmente ajudada por uma vizinha. Yue Yue faleceu alguns dias depois. O caso provocou um debate emocionado sobre as insuficiências legais e éticas da China contemporânea. De acordo com a imprensa, as autoridades de Shenzhen e Xangai, bem como o Ministério da Segurança Pública, estão a ponderar a aprovação de diplomas para lidar com o problema. Antes de analisar as diferentes propostas e aferir da sua utilidade é necessário procurar explicações para um fenómeno que suscita difíceis questões sobre a natureza humana e a relação entre a moralidade e a lei.

Alguns têm procurado uma explicação para a apatia dos transeuntes chineses na cultura local, citando provérbios antigos que sugerem que as pessoas sempre olharam para si mesmas. Segundo um desses ditados “cada pessoa deve varrer a neve da sua própria porta e não preocupar-se com a geada no telhado do vizinho”. De acordo com esta perspectiva uma certa rispidez e indiferença face à desgraça dos outros é uma “característica chinesa”. Outros comentadores culpam o sistema de ensino chinês, acusando-o de ser demasiado utilitarista e desprovido de valores morais. Ao procurar explicações para o fenómeno, uma dose de cautela é aconselhável. Alguns comentadores parecem insinuar que os chineses são de alguma forma menos providos de valores morais que os outros, tratando este tipo de incidentes ​​como uma espécie de singularidade chinesa que nunca poderia acontecer noutros países. Esse tipo de comentário é demasiado simplista e tendencioso, não captando a essência do que aconteceu. A história recente do mundo ocidental está cheia de exemplos de indiferença que são tão perturbadores quanto o incidente de Yue Yue. Esses casos lembram-nos quão desconfortáveis são as questões que eles levantam para as sociedades modernas.

Três motivos diferentes foram identificados como principais causas para a apatia dos transeuntes chineses em relação a estranhos em desespero: o chamado “efeito de espectador”, a suposta “crise moral chinesa” e as deficiências do sistema legal chinês. Enquanto a primeira explicação se aplica universalmente (uma vez que tem sido observada em todo o mundo), as duas últimas levantam questões complexas sobre a China actual.

A apatia em relação às vítimas de acidentes não é um exclusivo da sociedade chinesa. O caso de Yue Yue tornou-se o equivalente chinês do infame assassinato, em 1964, de Kitty Genovese. De acordo com a imprensa, 38 nova-iorquinos assistiram ao assassinato e não intervieram até ao atacante fugir, tendo Genovese morrido entretanto. O incidente inspirou livros, músicas e filmes e ainda é usado como um caso de estudo em Psicologia para analisar o fenómeno dos espectadores que não auxiliam a vítima. O “efeito de espectador”, também conhecido como “síndrome Genovese”, é a tendência para as pessoas que testemunham uma situação de emergência ajudarem com menor frequência e rapidez conforme o número de espectadores aumenta. Quanto maior for o número de espectadores, mais forte é a sua influência inibindo a intervenção dos outros. Várias experiências têm demonstrado que, por mais estranho que possa parecer, as pessoas são menos propensas a ajudar em caso de emergência se outros estiverem presentes. Diante de uma situação de emergência um espectador passa por um complexo processo de decisão até determinar se deve intervir. O outro grande obstáculo à intervenção é conhecido como “difusão da responsabilidade”: os espectadores supõem que alguém irá intervir, cada indivíduo sente-se menos responsável e abstém-se de agir.

A “apatia do espectador” é um fenómeno que pode ser observado em todas as sociedades. Com uma população de mais de 1,3 biliões de pessoas, este efeito é frequente na maior parte do território chinês uma vez que geralmente as cidades têm uma população bastante elevada e há sempre um número considerável de pessoas que assistem aos acidentes. A questão que se coloca é saber como reduzir a apatia e encorajar o auxílio às vítimas.


Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: