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As novas fronteiras da Saúde Pública (II)

Coluna de opinião “Entre Aspas”, no “Ponto Final” de 14 de Setembro, página 3.

Nos últimos anos, um pouco por todo o mundo, têm sido postas em prática diversas medidas legislativas destinadas a alterar os hábitos alimentares da população. A criação de campanhas de informação pública é quase uma ferramenta intuitiva para lutar contra o excesso de peso e a obesidade. Apenas um consumidor informado pode fazer escolhas razoáveis. Apesar das possíveis vantagens destas medidas, vários factores limitam a sua eficácia. Nem todos os indivíduos estão familiarizados com as recomendações dietéticas. Para além disso, aqueles que prestam atenção aos conselhos nutricionais muitas vezes são bombardeados com mensagens contraditórias. Como as campanhas de informação muitas vezes não são suficientes, outras acções têm sido adoptadas, como a criação de regras que requerem a colocação do conteúdo calórico e nutricional nos produtos. Pesquisas mostram, no entanto, que os rótulos têm um impacto limitado sobre as escolhas alimentares individuais. Podemos questionar se os consumidores lêem os rótulos ou se estes têm alguma influência no seu comportamento. Outra medida que tem sido usada é a aprovação de regras que exigem que os restaurantes forneçam informações nutricionais nos seus menus. Este método leva em consideração uma alteração importante na cultura alimentar: as pessoas adquirem cada vez mais refeições fora de casa. Novamente, o problema é garantir que os consumidores estão dispostos a ser informados e a agir adequadamente.

A indústria alimentar dispõe de quantidades colossais de dinheiro para gastar com o objectivo de moldar as decisões dos consumidores. A publicidade dirigida às crianças tem sido reconhecida como uma das principais causas da obesidade infantil. O facto de as crianças serem mais ingénuas e menos capazes de formular um juízo crítico sobre a publicidade suscita a necessidade de regulamentação. Algumas jurisdições aprovaram leis proibindo ou restringindo a publicidade a alimentos durante os programas de televisão que têm como alvo as crianças. Na Noruega e na Suécia o marketing para crianças com menos de 12 anos de idade é proibido. Na Inglaterra a BBC proibiu o uso de personagens de desenhos animados na publicidade a produtos de comida rápida.

A discussão sobre as medidas de saúde pública destinadas a limitar os efeitos da publicidade sobre as crianças é por vezes convertida numa discussão sobre quem é mais culpado pela obesidade infantil: a indústria alimentar ou os pais. Enquanto os promotores de Saúde Pública culpam o poder da publicidade, a indústria acusa os pais de se recusarem a estabelecer limites aos seus filhos ou de não saberem o suficiente para lhes ensinar a importância de um estilo de vida saudável. Um bom exemplo deste tipo de argumento é fornecido pelo seguinte caso. Nos Estados Unidos, Monet Parham, mãe de dois filhos, propôs uma acção judicial alegando que a McDonalds usa ilicitamente brinquedos para atrair as crianças. Parham admitiu que frequentemente diz “não” aos seus filhos quando estes pedem um “Happy Meal”. Esta acção deveria ser recusada porque os pais podem sempre proibir os seus filhos de comer hambúrgueres, respondeu a empresa americana. O tribunal de San Francisco rejeitou o caso. Em meu entender, os pais não podem argumentar que não tiveram outra escolha senão comprar o “Happy Meal”, como se os seus filhos fossem vítimas de um apelo irresistível, e os progenitores pobres escravos de tais desejo. Afinal, quem está a ser infantil? Como lembra um autor, os seres humanos possuem uma preferência inapta por alimentos doces, alto teor de gordura e sal, e uma relutância em experimentar alimentos desconhecidos. No entanto, as primeiras experiências são fundamentais na formação de preferências alimentares individuais. É claro que as experiências alimentares das crianças devem ser supervisionadas pelos seus pais, que não se podem demitir das suas responsabilidades. É um evento raro encontrar uma criança que goste de sopa e odeie hambúrgueres. No entanto, não me parece que a preferência inapta das crianças por alimentos pouco saudáveis liberte automaticamente os pais do cumprimento dos seus deveres.


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